E era assim que ela estava quando a mãe chamou, dizendo que já havia lavado a roupa e que elas iam buscar os meninos. A mãe gritava mas ela achava normal, todas as mães gritam mesmo. O pai estava na roça e os irmãos na escola. Adorava ir com a mãe buscar os irmãos na escola, sonhava com o dia em que fosse estudar.
As cinco e meia da tarde a menina saiu correndo pra rua e a mãe gritava atrás para que ela esperasse. Ela estava com calor, queria uma laranjinha. Era uma menina mimada, queria tudo e achava mesmo que podia ter. Gritava até perder a voz e chorava. Manhosa. A mãe não tinha dinheiro pra laranjinha. Estava tão cansada de arrumar a casa, fazer enroladinhos e lavar roupa que nem lembrara de levar o dinheiro da laranjinha.
A menina saiu correndo e gritando e pulando. Queria uma laranjinha de qualquer jeito. E a mãe gritava atrás. Nem viu o buraco e se enfiou lá embaixo. Só lembrou da mãe gritando, pedindo ajuda. E depois estava no carro do avô, na escola dos irmãos. Chorando com os pés esfolados e o joelho ralado. Mas estava com uma laranjinha. Do buraco não se lembra, só de ouvir a mãe contar, rindo. Depois de muitos anos a mãe ainda conta a história e ri. Mas na hora a mãe não riu, ficou muito brava. Até ameaçou bater.
